Projetos de Pesquisa

 

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Wolnei Caumo

Ciências da Saúde

Medicina
  • estimulação transcraniana de corrente contínua (etcc) aplicada ao córtex motor primário e dorsolateral na conectividade cerebral funcional e sua relação com os sintomas da fibromialgia: um ensaio clínico randomizado, duplo-cego controlado e explanatório
  • A fibromialgia (FM) é uma síndrome que se caracteriza por dor musculoesquelética generalizada, fadiga, sono não reparador, alterações cognitivas, sintomas depressivos e neurovegetativos. A prevalência populacional varia de 2% a 5,4% segundo os critérios diagnósticos do American College of Reumathologoy - 2010. Estima-se que nos EUA determina um gasto de mais de 29 bilhões de dólares ao ano, com gastos diretos com o atendimento médico e encargos da aposentadoria precoce. Sabe-se que as terapêuticas farmacológicas convencionais produzem respostas com impacto clínico pouco relevante em mais de 50% dos pacientes. Postula-se que estas taxas elevadas de insucesso se devam em parte à falta de conhecimento sobre os mecanismos fisiopatológicos. O que se conhece até o presente, é que os mecanismos periféricos contribuem para o quadro da FM, mas que o processo fisiopatológico principal é o desbalanceamento nos mecanismos neurobiológicos de excitação e inibição, fato que pode explicar a dor migratória, fadiga ubíqua, problemas de sono, memória e humor depressivo, pensamento catastrófico. Adicionam-se aos sintomas mencionados, a hiperalgesia difusa, a alodinia e o efeito de somação. Tais sintomas fazem parte da sensibilização central. Dentre os processos disfuncionais da FM, têm sido demonstradas alterações funcionais do córtex motor e de suas conexões com estruturas subcorticais, que constituem a neuromatriz da dor. A partir desta natureza complexa da FM, o objetivo desta pesquisa é obter maior clareza sobre sua fisiopatologia e identificar distinções entre subgrupos de pacientes com vistas ao avanço no diagnóstico e no tratamento, tendo como alvo uma terapia individualizada e a melhora dos desfechos, atenuando assim, o expressivo prejuízo à vida dos pacientes e o pesado encargo social e econômico ao paciente e à sociedade. Neste estudo o alvo terapêutico será a estimulação transcraniana de corrente contínua (ETCC), com o objetivo de contra regular os processos disfuncionais responsáveis por desencadear e manter os sintomas da FM. Embora a ETCC venha galgando espaço na pesquisa e no cenário clínico, e que já exista algum nível de evidência de seu efeito positivo na FM, ainda persistem muitas questões a serem respondidas, tais como o local a ser estimulado (e outros aspectos da montagem) e como ela pode influenciar o processamento nas diferentes áreas do córtex e subcórtex. Então, o presente ensaio clínico tem o objetivo de avaliar e comparar a eficácia da estimulação transcraniana de corrente contínua (ETCC) anodal aplicada ao córtex motor primário (M1) e córtex pré-frontal dorsolateral (DLPFC) esquerdo no tratamento da FM, tendo como desfechos: a conectividade funcional intrínseca avaliada por meio da ressonância magnética funcional (RMf) em 3-D, medidas de dor com teste quantitativo sensorial, capacidade funcional, sintomas depressivos, ritmo sono-vigília por meio da actimetria e função do sistema modulador descendente da dor. Também, avaliar-se-á como potenciais preditores da resposta à ETCC nos desfechos primários: (a) parâmetros da EMT [potencial evocado motor (MEP), inibição intracortical (ICI), facilitação intracortical (ICF) e período silente (CSP)]; (b) os níveis séricos do fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF) e o polimorfismo Val66Met (rs6265) do gene do BDNF, bem como os níveis da proteína S100B; (c) nível de sensibilização central e pensamento catastrófico à dor. Neste ensaio clínico, randomizado, controlado por tratamento simulado, em paralelo e duplo-cego serão incluídas 84 pacientes femininas, com FM, segundo os critérios do Colégio Americano de Reumatologia (2010 - revisado em 2016), com idade entre 30 a 65 anos. As pacientes serão randomizadas para receber 20 sessões de ETCC anodal com duração de 20 min, com corrente de 2mA, aplicado sobre o M1 ou cortex DLPFC esquerdo. A ETCC será realizada em nível domiciliar, para tanto, as pacientes receberão um treinamento para utilizar o equipamento de ETCC. Elas terão acesso a um vídeo instrutivo sobre a ETCC, e uma via de comunicação com a equipe via WhatsApp. O tempo de seguimento após o término da estimulação será de 12 semanas conforme recomendação do Initiative on Methods, Measurement, and Pain Assessment in Clinical Trials (IMMPACT). As pacientes deverão responder diariamente questionários sobre o nível de dor, uso de analgésicos, qualidade do sono e outro sobre os possíveis efeitos colaterais da ETCC. A ETCC domiciliar será realizada com equipamento desenvolvido pelo grupo de pesquisa coordenado pelo proponente deste projeto, em parceria com a Engenharia Biomédica do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), com registro de patente junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) sob o número BR2020150164500. Além da possível contribuição na produção de conhecimento, este projeto visa transferir a tecnologia adquirida e desenvolvida à comunidade, e dessa forma, poderá beneficiar milhões de pessoas que padecem de dor crônica por FM. Além disso, proporcionar técnica terapêutica custo-efetiva para estudos fase III sobre o uso da ETCC em larga-escala em nível domiciliar, técnica que pode ser extensiva a várias patologias neuropsiquiátricas, como a depressão e além de poder auxiliar como adjuvante na reabilitação de sequelas de isquemia cerebral. Nossa hipótese é que a ETCC ativa tenha um efeito superior a ETCC simulada, e que a estimulação sobre o DLPFC tenha maior impacto nos sintomas psicológicos, enquanto a estimulação sobre o M1 tenha um efeito mais marcado na função do sistema modulador inibitório descendente da dor. No entanto, hipotetiza-se que ambas terão impacto positivo nos desfechos clínicos e capacidade funcional comparadas ao tratamento simulado. Espera-se que o nível de desinibição cortical avaliado pelas medidas da EMT, assim como os níveis séricos da neurotrofinas BDNF e S-100B possa servir como preditores de resposta ao tratamento.
  • Universidade Federal do Rio Grande do Sul - RS - Brasil
  • 18/02/2019-28/02/2022